«Gestão de RSU tem grande potencial de redução de emissões»

A melhor estratégia é evitar, desde logo, a produção de resíduos, aconselha o mais recente relatório sobre o tema da Agência Europeia do Ambiente. Ainda assim, os números são esclarecedores: a aposta na reciclagem é uma das formas de evitar mais emissões de gases com efeito de estufa na gestão de resíduos.

Há um grande potencial para reduzir gases com efeito de estufa (GEE) na gestão de resíduos sólidos urbanos, de acordo com o novo relatório publicado pela Agência Europeia do Ambiente  (AEA). O relatório, “Oportunidades nos Resíduos – Passado e futuro: benefícios climáticos de uma melhor gestão de resíduos urbanos na Europa”, estima que os 27 países da Europa (incluindo a Noruega e a Suíça) podem economizar até 78 milhões de toneladas equivalentes de dióxido de carbono (CO2e) em 2020, ou 1,53 % das emissões de 2008.

O relatório faz uma “abordagem de ciclo de vida”, considerando todas as emissões directas provenientes durante o processamento e transporte de resíduos. A análise também contempla as emissões que são evitadas em outros sectores da economia, como, por exemplo, a redução de emissões quando os combustíveis fósseis são substituídos por energia produzida a partir de resíduos.

Desta forma, o método demonstra o impacte potencial de várias estratégias de gestão de resíduos. A aposta na reciclagem é uma das acções que mais impacte tem nas emissões evitadas. Isto é porque a reciclagem de resíduos sólidos urbanos evita emissões geradas na extracção e processamento de matérias-primas virgens, e essas emissões evitadas são maiores do que as emissões causadas pelos processos de reciclagem.

O documento faz a análise com base em três diferentes cenários para 2020, tendo em conta que o potencial de poupança de GEE depende, em grande parte, de como os países estão a implantar as políticas europeias de resíduos, em especial a Directiva Aterros. Da análise conclui-se que, num cenário business-as-usual, as emissões líquidas de GEE a partir da gestão de resíduos municipais seriam reduzidas em 44 milhões de toneladas equivalentes de CO2 até 2020, em relação a 2008. Os dois principais factores responsáveis por essa melhoria respeitam à redução do metano nos aterros, e ao aumento de emissões evitadas através da reciclagem. É que, neste cenário, a deposição em aterro deverá cair para 28% e a reciclagem aumentar para 49%, em 2020.

Por outro lado, se todos os países cumprirem as metas de desvio de resíduos biodegradáveis nos aterros, o potencial de redução de emissões seria de 62 milhões de toneladas de CO2e, o que significa 1,23% das emissões totais de GEE, em 2008. O documento mostra ainda que a proibição total da deposição em aterro poderia reduzir as emissões até 78 milhões de toneladas de CO2e em 2020, em relação a 2008. Este valor é superior às emissões totais da Hungria, nesse ano.

Os dados evidenciam que cada vez mais resíduos sólidos são reciclados e menos são depositados em aterros: em 1995, a União Europeia (UE) reciclava 17% dos seus resíduos sólidos urbanos, valor que subiu para os 40%, em 2008. Nesse período, o montante depositado em aterro caiu de 68 para 40%. Estas melhorias já representam um corte líquido anual das emissões de GEE de 48 milhões de toneladas de CO2e, entre 1995 e 2008, na UE-27, Noruega e Suíça. Ainda assim, é de realçar que, em 1995, o cidadão médio da UE produzia cerca de 468 kg de resíduos sólidos urbanos, valor que aumentou para os 524 kg, em 2008. Este número poderá atingir os 558 kg por pessoa até 2020, caso não sejam postas em prática políticas efectivas para reduzir a produção de resíduos. Na maioria dos países analisados, a maior fracção dos resíduos sólidos urbanos são resíduos alimentares ou verdes, o que representa uma oportunidade significativa para reduzir as emissões através da reciclagem e recuperação de energia.

Em 2008, cerca de 44 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos foram compostadas, evitando a emissão de 1,4 milhões de toneladas de CO2e. Mas se estes resíduos fossem sujeitos a digestão anaeróbica – produzindo biogás -, as emissões líquidas evitadas ascender a 2 milhões de toneladas de CO2e.

Para além de contribuir para o combate às alterações climáticas, o aumento da reciclagem e da recuperação de energia também aumenta e eficiência no aproveitamento dos recursos, que é, aliás, o objectivo principal da estratégia da UE 2020. No entanto, a verdade é que mesmo a estratégia de gestão de resíduos mais eficaz é responsável por emissões de GEE e pela perda de recursos, por isso, os autores observam que a melhor estratégia é evitar a produção de resíduos em primeira instância.

Fonte: Revista Água & Ambiente, Lúcia Duarte  

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