«Ausência de um plano nacional, leva ONG a afinar estratégias para a Educação Ambiental»

A ausência de um plano nacional para a educação ambiental é uma das falhas a que as ONG ambientais apontam o dedo. Apesar de tudo, estas entidades conseguiram criar as suas próprias estratégias para a educação e a sensibilização para o desenvolvimento sustentável.

Entre as entidades mais pró-activas, no que se refere a colocar em marcha iniciativas de educação ambiental, encontram-se as organizações não governamentais de ambiente (ONGA). Não existindo directrizes nacionais que orientem a actuação do País neste domínio, acabam por ser estas organizações a dinamizar projectos de norte a sul. Um dos exemplos é a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), que, através das suas actividades e iniciativas, tenta sensibilizar os cidadãos para as várias questões ambientais, algo que vai redundar numa “participação activa da sociedade nesta área”, diz Ana Sofia Ribeiro, engenharia ambiental desta ONGA. Essencialmente, a LPN desenvolve iniciativas destinadas a “toda a comunidade”, com a estratégia para a educação ambiental a alicerçar-se na promoção de diversos projectos que estão direccionados para públicos específicos e para diferentes faixas etárias, como é o caso da população estudantil.

Entre o lote de potenciais parceiros para as acções a desenvolver contam-se as autarquias, as empresas privadas, os institutos de ensino, as instituições culturais, as associações de âmbito ambiental ou social, as forças policiais, as associações juvenis, os movimentos de voluntariado, e até instituições bancárias. “Ao longo dos últimos anos têm sido efectuadas parcerias com várias instituições, públicas e privadas, para a promoção de actividades de educação ambiental, desde que estas demonstrem ter uma politica de sustentabilidade e partilhem dos mesmos princípios que a LPN”, refere Ana Sofia Ribeiro. No entanto, o processo de escolha das entidades que funcionarão como parceiros depende igualmente do público a quem se dirige o projecto, “podendo, nesse caso, as parcerias serem com associações de escuteiros, associações de agricultores e escolas”. Outras condicionantes importantes a ter em conta são “a capacidade organizativa e o historial dessas mesmas entidades, ou até a mesma distribuição territorial”.

Até ao momento, e a crer na LPN, as iniciativas promovidas (mesmo as mais pontuais) têm tido uma “boa adesão”, embora o organismo não negue que o nível de participação nas várias actividades “está fortemente dependente da capacidade de divulgação das mesmas”.

Apesar de todos estes projectos de educação ambiental e da sua recepção positiva, o grupo ecologista já não tem uma visão tão positiva quando olha para o panorama geral e para o que está a ser feito a nível nacional. “Em Portugal ainda não existe uma integração da educação ambiental nos programas educativos e curriculares das escolas”, acusa Ana Sofia Ribeiro, sendo esta uma situação que acaba por dificultar “o trabalho nesta área de uma forma estruturada e continua com as várias faixas etárias”.

Na ausência de uma estratégia nacional de educação para a eficiência energética, qual a melhor solução à vista? “Será necessário criar uma articulação entre várias entidades competentes da área ambiental e energética, de forma a promover uma reflexão conjunta no referido âmbito”, argumenta a responsável.

Educar em apenas 60 segundos

Uma das mais conhecidas ONGA de Portugal, a Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza, começou a fazer intervenções mais planeadas no que se refere à educação ambiental a partir da última década de 90. Esta área de actuação tornou-se, desde então, uma peça fulcral para defender o ambiente, apresentando-se como uma alavanca capaz de inverter a tendência que existia para o desordenamento do território e a destruição da diversidade biológica do País. Em 2004, foi criado no seio da associação o Grupo de Formação e Educação para a Sustentabilidade, de modo a dar força a uma das vertentes estruturantes da associação: a sensibilização, informação e formação de entidades e pessoas, no sentido de procurar alcançar a mudança de comportamentos. O objectivo passa, acima de tudo, pela criação de uma estrutura profissional e de longo prazo dentro da Quercus, capaz de definir e implantar uma estratégia a nível nacional.

Uma das acções que daqui resultou foi a rubrica televisiva “Minuto Verde”, que é exibida todos os dias de manhã na RTP, durante o programa informativo “Bom Dia Portugal”. Produzido pela associação ambientalista, esta rubrica vai para o ar há mais de 5 anos e tem a escrupulosa duração de 60 segundos, sendo transmitida 3 vezes ao longo de cada manhã. A sua finalidade é a de sensibilizar os telespectadores para as questões ambientais, recorrendo a pequenas “dicas” que podem ser aplicadas no quotidiano. Apesar de parecer uma gota no oceano, bastou à Quercus fazer algumas contas para se ter uma ideia das proporções desta iniciativa: até ao dia  4 de Março deste ano – altura em que a rubrica comemorou 5 anos de transmissão – já tinham sido transmitidos 1270 conselhos ambientais, o que representava um total de 21 horas em sensibilização e educação ambiental. Energia, água, a qualidade do ar, as questões de mobilidade, os resíduos e ainda, pois claro, a conservação da natureza. Todos estes assuntos são abordados no “Minuto Verde”, dando-se preferência a uma abordagem mais doméstica como forma de promover a gestão mais eficiente dos recursos existentes.

Também a GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente tem a sua quota-parte nos processos de educação e formação. Uma das iniciativas dinamizadas por esta organização não governamental é o Centro Educativo do Paulo de Tornada, uma reserva natural – próximo de Caldas da Rainha -, que integra a Rede Nacional de Áreas Protegidas. Com cerca de 25 hectares, esta área caracteriza-se por ser uma zona húmida povoada por 145 espécies de aves e 18 espécies de mamíferos, muitas deles em perigo de extinção em Portugal.

Perante estas especificidades, a zona é considerada pela associação como a ideal para a prática de acções de educação e sensibilização ambiental, privilegiando iniciativas mais directas e terra-a-terra que se destinam, essencialmente, aos alunos e professores dos vários níveis de ensino. As caminhadas pelos trilhos do Paulo Tornada, a realização de ateliês pedagógicos e ainda de palestras, debates e exposições são algumas das principais actividades do centro.

 

Fonte: Revista Água & Ambiente, João Pedro Lobato 

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